Voo para Buenos Aires pode abrir portas para negócios entre Brasil e Argentina — mas estratégia precisa ir além do turismo

O anúncio do voo experimental entre Vitória e Buenos Aires é apresentado como um marco para o turismo capixaba. No entanto, limitar essa iniciativa apenas à atração de visitantes argentinos pode significar desperdiçar uma oportunidade muito maior: fortalecer as relações comerciais entre empresários brasileiros e argentinos.

A proposta, que será discutida pelo Conselho Estadual de Turismo (Contures), prevê ações promocionais do Espírito Santo na Argentina e busca viabilizar uma rota aérea direta entre as duas capitais. O projeto envolve o Governo do Estado, Sebrae-ES, Fecomércio-ES, Zurich Airport Brasil e a GOL Linhas Aéreas.

O que chama atenção, porém, é que o debate público continua concentrado quase exclusivamente no turismo. A conexão direta entre Vitória e Buenos Aires pode representar muito mais do que um fluxo maior de visitantes durante a alta temporada.

A Argentina continua sendo um dos principais parceiros comerciais do Brasil na América do Sul. Facilitar o deslocamento entre os dois mercados pode aproximar empresários, investidores, startups, universidades e instituições, criando um ambiente favorável para novos investimentos, parcerias estratégicas e intercâmbio tecnológico.

Esse tipo de relacionamento — conhecido como network internacional — costuma gerar resultados muito mais duradouros do que campanhas de promoção turística isoladas. Quando empresários conseguem se reunir presencialmente com mais facilidade, aumentam as oportunidades de negócios, de exportações, de importações e até da instalação de novas empresas em ambos os países.

A própria estratégia anunciada já menciona uma aproximação entre empresários capixabas e argentinos em parceria com a Fecomércio-ES. Entretanto, esse aspecto aparece como um complemento da iniciativa, quando poderia ser tratado como um dos seus principais pilares.

Essa é uma oportunidade para o Espírito Santo se posicionar como uma plataforma de negócios internacionais, aproveitando sua infraestrutura portuária, sua localização estratégica e o crescimento recente do Aeroporto de Vitória. O Estado já é referência em logística e comércio exterior; agora, pode transformar a conectividade aérea em um diferencial competitivo para atrair investimentos.

A crítica não é ao projeto, mas à forma como ele vem sendo comunicado. Enquanto outros estados utilizam voos internacionais como instrumentos para impulsionar comércio, inovação e investimentos, no Espírito Santo o discurso ainda gira predominantemente em torno do turismo.

Receber turistas é importante. Mas conectar empresários, aproximar mercados e estimular novas relações comerciais pode gerar impactos econômicos muito mais expressivos e permanentes.

Se o voo entre Vitória e Buenos Aires realmente se consolidar, o maior legado talvez não esteja nas praias visitadas pelos argentinos, mas nas oportunidades de negócios que poderão surgir entre os dois lados da fronteira.

Fonte: Folha Vitória.

Chelle
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